quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

PEDRO PÁRAMO, de Juan Rulfo


1

"- ... Esse fulano de quem estou falando trabalhava como "amansador" na Media Luna; dizia que seu nome era Inocencio Osorio. Mas todos o conheciam pelo mau nome de busca-pé porque ele era muito leve e muito ágil para os saltos. Meu compadre Pedro dizia que ele era como se tivesse sido mandado fazer para amansar potrinhos; mas a verdade é que tinha outro ofício: o de "provocador". Era provocador de sonhos. Isso é o que ele era de verdade. E acabou enganando sua mãe do mesmo jeito que fazia com muitas."
p. 41







Pedro Páramo / Juan Rulfo. - São Paulo: Record, 2005.
ISBN: 85-01-06592-7  








Leitura emprestada, livro vai, mas muito fica.








janeiro de 2014

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES, de Gabriel García Márquez



1

"Também a moral é uma questão de tempo, [...]"
p. 07

2

"Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor."
p. 11

3

"Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. [...] A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam."
p. 13

4

"As tempestuosas despedidas de solteiro que me faziam no Bairro Chinês iam na contramão dos serões opressivos do Club Social. Contraste que me serviu para saber qual dos dois mundos era na realidade o meu, e cheguei a ter a ilusão de que os dois eram porém cada um na sua hora, pois de qualquer dos dois eu via o outro se afastar com os suspiros dilacerados com que se separam os barcos em alto-mar."
p. 43

5

"O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol." 
p. 45


6

"[...], e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e não foram."
p. 61


7

"Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente."
p. 68


8

"Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças."
p. 71

9

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."
p. 74

10

" - Não se engane: os loucos mansos se antecipam ao porvir."
p. 76

11

"Antes de voltar para casa no dia seguinte escrevi no espelho com o batom: Minha menina, estamos sozinhos no mundo."
p. 80

12

"Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego."
p. 95

13

"Ainda enredado nas teias de aranha da noite tive coragem de ir no dia seguinte à fábrica de camisas onde Rosa Cabarcas havia dito uma vez que a menina trabalhava e pedi ao proprietário que me mostrasse as instalações para servir de modelo para um projeto continenal das Nações Unidas. Era um libanês paquidérmico e taciturno, que nos abriu as portas de seu reino com a ilusão de ser um exemplo universal."
p. 99

14

"Lendo Os idos de março encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: É impossível não acabar sendo do jeito do jeito que os outros acreditam que você é. Não pude comprovar sua verdadeira origem na própria obra de Júlio César nem nas obras de seus biógrafos, de Suetônio a Carcopino, mas valeu a pena conhecê-la."
p. 107

15


"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê."
p. 109

16


"Olhou-me nos olhos, mediu minha reação ao que acabava de me contar, e disse: Então, vá correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem os seus ciúmes, não importa, o que você viveu ninguém rouba. Mas, isso sim, sem romanticismos de avô. Acorde a menina, fode ela até pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou você pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma: não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor."
p. 111

17


"Em cima do tampo de vidro que cobria a escrivaninha tinha aberto um dos enormes livros de apontamentos do arquivo onde estava o registro das jóias de minha mãe. Uma relação exata, com datas e detalhes de que ela em pessoa tinha mandado mudar as pedras de duas gerações de belas e dignas Cargamantos, e havia vendido as legítimas naquela mesma loja. Isso tinha acontecido quando o pai do atual proprietário estava à frente da joalheria, e ele e eu na escola. Mas ele mesmo me tranqüilizou: aquelas pequenas artimanhas eram de uso corrente entre as grandes famílias em desgraça, para resolver urgências de dinheiro sem sacrificar a honra. Diante da realidade crua, preferi conservá-las como lembrança de outra Florina de Dios que jamais conheci."
p. 117




Memória de minhas putas tristes / Gabriel Gracía Márquez. - Rio de Janeiro: Record, 2005.
ISBN: 85-01-07265-6  












Rodapé:




"El amor es el estado en el cual, la mayoría de las veces, el hombre ve las cosas como no son. Aquí se encuentra en su cumbre la fuerza ilusoria, lo mismo que la fuerza endulzadora, transfiguradora. En el amor se soportan más cosas que en cualquier otra situación, se tolera todo."

(NIETZSCHE, Friedrich. El Anticristo. Alianza Editorial: Madrid, 2006.)







dezembro de 2013 




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

DOM CASMURRO, de Machado de Assis



1

"[...] Não soltamos a mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A bôca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu entre nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras da bôca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham..."
p. 22

2

"Capitu quis lhe repetisse as respostas tôdas do agregado, as alterações do gesto e até a piruêta, que apenas lhe contara. Pediu o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o diálogo, tudo parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia, rotulava e pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição.

Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de várias espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber de tudo."
p. 45

3

" - [...]. Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera dêles, "olhos de cigana oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a côr e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados nêles, a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...


Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aquêles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que êles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma fôrça que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me."

p. 47-8

4

"[...], e foi assim que nos pacificamos. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos recìprocamente [sic] perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito, e finalmente "os seus calundus." Eu, que era muito chorão por êsse tempo, sentia os olhos molhados... Era amor puro, era efeito dos padecimentos, era a ternura da reconciliação."

p. 69

5

"Entre luz e fusco, tudo há de ser breve como êsse instante. [...] Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu." 

p. 73


6

"[...]; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se."

p. 89

7

"Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anunciam as peripécias nem o desfecho. Êles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. "
p. 102


8

"O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovada, um carro, um tiro."
p. 103

9

"Contando aquela crise do meu amor adolescente, sinto uma coisa que não sei se explico bem, e é que as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo, que chegaram a diluir-se no prazer. Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. A verdade é que sinto um gôsto particular em referir tal aborrecimento, quando é certo que êle me lembra outros que não quisera lembrar por nada."
p. 106

10

"A minha alegria acordava a dêle, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas dêste mundo."
p. 125





Dom Casmurro / Machado de Assis. - São Paulo: Catânia Editôra, s/d.















Não sei muito o que dizer do que senti do livro a não ser que quanto mais adiantadas as páginas, mais me sentia agoniada e angustiada pelo sentimento que o sentimento de Bentinho me fazia sentir. Se Capitu traiu Bentinho? Não saberia também dizer, mas sendo o livro permeado pela narração imparcial dos fatos de acordo com a visão e com os sentimentos angustiados de Bentinho, poderia facilmente dizer que sim, pode que a dona dos olhos de ressaca o tenha traído. E diria isso com base nesse embrulho no estômago que certas vezes sentimos - como algo não palpável remexendo lá dentro querendo sair, que é pouco provável, vá lá, mas possível que seja a intuição nos delatando o que os olhos não vêem - ou apenas os nossos olhos enganados pelo tanto ou pelo pouco que nos cega.














19 de dezembro de 2013 




  



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A PAIXÃO SEGUNDO G.H., de Clarice Lispector


1

"Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser - se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."
p. 9

2

"E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

[...] Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada?"
p. 10


3


"[...] Por que é que ver é uma tal desorganização?

E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez a desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido."
p. 11

4

"E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? também, também.

[...] Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu."
p. 11-2

5

"Todo momento de achar é um perder-se a si próprio.

Para sabê-lo de novo, precisaria agora remorrer. E saber será talvez o assassinato de minha alma humana. E não quero, não quero. O que ainda poderia me salvar seria uma entrega à nova ignorância, isso seria possível. Pois ao mesmo tempo que luto por saber, a minha nova ignorância, que é o esquecimento, tornou-se sagrada. Sou a vestal de um segredo que não sei mais qual foi. E sirvo ao perigo esquecido." 
p. 14


6

"O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade. Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza. Embora eu saiba que o horror - o horror sou eu diante das coisas."
p. 17


7

"Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez."
p. 18


8

"Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma criação, meu único modo."
p. 19

9


"Nada me fazia supor ao que eu ia. Mas é que nunca fui capaz de perceber as coisas se encaminhando; todas as vezes que elas chegavam a um ápice, me parecia com surpresa um rompimento, explosão dos instantes, com data, e não a continuação de uma ininterrupção.

Naquela manhã, antes de entrar no quarto, o que era eu? Era o que os outros sempre me haviam visto ser, e assim eu me conhecia."
p. 22-3

10

"A G.H. vivera muito, quero dizer, vivera muitos fatos. Quem sabe eu tive de algum modo pressa de viver logo tudo o que eu tivesse a viver para que me sobrasse tempo de... de viver sem fatos? de viver."
p. 24

11

"Também para minha vida interior eu adotara sem mentir a minha reputação: eu me trato como as pessoas me tratam, sou aquilo que de mim os outros veem.

[...] O que me deixava muito mais livre para ser mulher, já que eu não me ocupava formalmente em sê-lo."
p. 25

12

"Tudo isso me deu o leve tom de pré-clímax de quem sabe que, auscultando os objetos, algo desses objetos virá que me será dado e por sua vez dado de volta aos objetos.

[...] E é só o que posso dizer a meu respeito? Ser "sincera"? Relativamente sou. Não minto para formar verdades falsas. Mas usei demais as verdades como pretexto."
p. 26

13

"O que os outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim, e forma a atmosfera do que se chama: eu.

[...] Minha pergunta, se havia, não era: "que sou", mas "entre quais eu sou". Meu ciclo era completo: o que eu vivia no presente já se condicionava para que eu pudesse posteriormente me entender. Um olho vigiava a minha vida. A esse olho ora provavelmente eu chamava de verdade, ora de moral, ora de lei humana, ora de Deus, ora de mim. Eu vivia mais dentro de um espelho. Dois minutos depois de nascer eu já havia perdido as minhas origens."
p. 27

14

"[...] E também, é claro, minha liberdade vinha de eu ser financeiramente independente."
p. 28

15


"Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se fosse real não me serviria."
p. 29

16


"Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira - como naquele momento em que ontem de manhã estava sentada à mesa do café - quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De algum modo "como se não fosse eu" era mais amplo do que se fosse - uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava como uma invenção."
p. 30

17


"Essa imagem de aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que eu não era, e essa imagem do não-ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que eu era, então "não ser"era a minha maior aproximação da verdade: pelo menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o "não", tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia com algum pré-fervor o que era o meu "mal"."
p. 31

18

"Desde já calculo que aquilo que de mais duro minha vaidade terá de enfrentar será o julgamento de mim mesma: terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária."
p. 31

19

"O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. É em mim que tenho de criar esse alguém que entenderá."
p. 44

20


"Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim para uma verdade - meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata."
p. 59

21



"Olhei para o teto com olhos pesados."
p. 62

22



"Minha vida fora tão contínua quanto a morte. A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte. 

Eu, corpo neutro de barata, eu com uma vida que finalmente não me escapa pois enfim a vejo fora de mim [...]"
p. 64

23


"De nascer até morrer é o que eu me chamo humana, e nunca propriamente morrerei.

[...] O mundo se me olha. Tudo olha para tudo, tudo vive o outro; [...]"
p. 65



24


" - Vê, meu amor, vê como por medo já estou me organizando, [...] É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou.

[...] Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?"

[...] Não, espera, espera: com alívio tenho que lembrar que desde ontem já saí daquele quarto, eu já saí, estou livre! e ainda tenho chance de recuperação. Se eu quiser. Mas quero?"
pp. 66-7



25


"Eu estava sabendo que o animal imundo da Bíblia é proibido porque o imundo é a raiz - pois há coisas criadas que nunca se enfeitaram e conservaram-se iguais ao momento em que foram criadas, e somente elas continuaram a ser a raiz ainda toda completa."
p. 71



26


" 'E tudo o que anda de rastos e tem asas será impuro, e não se comerá.'

Abri a boca espantada: era para pedir um socorro. Por quê? por que não queria eu me tornar tão imunda quanto a barata? que ideal me prendia ao sentimento de uma ideia? por que não me tornaria eu imunda, exatamente como eu toda me descobria? O que temia eu? ficar imunda de quê?

[...] - Ah, não me retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos - mas não retires a tua mão, mesmo que eu já saiba que encontrar tem que ser pelo caminho daquilo que somos, se eu conseguir não me afundar definitivamente naquilo que somos."
p. 72



27


"A desumanização é tão dolorosa como perder tudo, como perder tudo, meu amor.

[...] Eu sabia que estava me despedindo para sempre de alguma coisa, alguma coisa ia morrer, e eu queria articular a palavra que pelo menos resumisse aquilo que morria.

[...] De repente era isso. Eu estava entendendo que "pedir" eram ainda os últimos restos de um mundo apelável que, mais e mais, se estava tornando remoto. E se eu continuava a querer pedir era para ainda me agarrar aos últimos restos de minha civilização antiga, agarrar-me para não me deixar ser arrastada pelo que agora me reivindicava."
p. 73



28


" - Nunca, até então, a vida me havia acontecido de dia. Nunca à luz do sol. Só nas minhas noites é que o mundo se revolvia lentamente. Só que, aquilo que acontecia no escuro da própria noite, também acontecia ao mesmo tempo nas minhas próprias entranhas, e o meu escuro não se diferenciava do escuro de fora, e de manhã, ao abrir os olhos, o mundo continuava sendo uma superfície: a vida secreta da noite em que breve se reduzia na boca ao gosto de um pesadelo que some. Mas agora a vida estava acontecendo de dia. Inegável e para ser vista. A menos que eu desviasse os olhos.

[...] - Entende, morrer eu sabia de antemão e morrer ainda não me exigia. Mas o que eu nunca havia experimentado era o choque com o momento chamado "já". Hoje me exige hoje mesmo. Nunca antes soubera que a hora de viver também não tem palavra. A hora de viver, meu amor, estava sendo tão já que eu encostava a boca na matéria da vida. A hora de viver é um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par."
pp. 76-8



29


"Agora é o tempo inchado até os limites. Onze horas não têm profundidade. Onze horas está cheio das onze horas até as bordas do copo verde. O tempo freme como um balão parado."
p. 79


30


"Pois a atualidade não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente de novo uma atualidade."
p. 80


31


"Meu suor me aliviava. Olhei para cima, para o teto. Com o jogo de feixes de luz, o teto se arredondara e transformara-se no que me lembrava uma abóbada. A vibração do calor era como a vibração de um oratório cantado. Só minha parte auricular sentia. Cântico de boca fechada, som vibrando surdo como o que está preso e contido, amém, amém.

[...] Reza por mim, minha mãe, pois não transcender é um sacrifício, e transcender era, antigamente o meu esforço humano de salvação, havia uma utilidade imediata em transcender."
p. 81


32


"[...] - eu quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima, nem com uma esperança - até agora o que a esperança queria em mim era apenas escamotear a atualidade.

Mas eu quero muito mais que isto: quero encontrar a redenção no hoje, no já, na realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste instante [...]"
pp. 82-3


33


"[...] Não, não havia sal naqueles olhos. Eu tinha a certeza de que aos olhos da barata eram insossos. Para o sal eu sempre estivera pronta, o sal era a transcendência que eu usava para poder sentir um gosto, e poder fugir do que eu chamava de "nada". Para o sal eu estava pronta, para o sal eu toda me havia construído. Mas o que minha boca não saberia entender - era o insosso. O que eu toda não conhecia - era o neutro.

E o neutro era a vida que eu antes chamava de o nada. O neutro era o inferno."
p. 84


34


"[...] Sentada, consistindo, eu estava sabendo que não se chamasse as coisas de salgadas ou doces, de tristes ou alegres ou dolorosas ou mesmo com entretons de maior sutileza - que só então eu não estaria mais transcendendo e ficaria na própria coisa.

Essa coisa cujo nome desconheço, era essa coisa que, olhando a barata, eu já estava conseguindo chamar sem nome.

[...] Ah, pelo menos eu já entrara a tal ponto na natureza da barata que já não queria fazer nada por ela. Estava me libertando de minha moralidade, e isso era uma catástrofe sem fragor e sem tragédia.

A moralidade. Seria simplório pensar que o problema moral em relação aos outros consiste em agir como se deveria agir, e o problema moral consigo mesmo é conseguir sentir o que se deveria sentir? Sou moral à medida que faço o que devo, e sinto como deveria? De repente a questão moral me parecia não apenas esmagadora, como extremamente mesquinha.

[...] Eu já não queria fazer nada pela barata. Estava me libertando de minha moralidade - embora isso me desse medo, curiosidade e fascínio; e muito medo. Não vou fazer nada por ti, também eu ando de rojo. Não vou fazer nada por ti porque não sei mais o sentido de amor como antes eu pensava que sabia. Também do que eu pensava sobre amor, também disso estou me despedindo, já quase não sei mais o que é, já não me lembro.

Talvez eu ache um outro nome, tão mais cruel a princípio, e tão mais ele-mesmo. Ou talvez não ache. Amor é quando não se dá nome à identidade das coisas? "
pp. 85-6


35


"[...] - e vejo que há alguma coisa mais séria e mais fatal e mais núcleo do que tudo o que eu costumava chamar por nomes. Eu, que chamava de amor a minha esperança de amor.

[...] E quero saber se a esperança era uma contemporização com o impossível. Ou se era um adiamento do que é possível já - e que eu só não tenho por medo. Quero o tempo presente que não tem promessa, que é, que está sendo."
p. 87


36


"O medo que eu sempre tive do silêncio com que a vida se faz. Medo do neutro. O neutro era a minha raiz mais profunda e mais viva - eu olhei a barata e sabia. Até o momento de ver a barata eu sempre havia chamado com algum nome o que eu estivesse vivendo, senão não me salvaria."
p. 91


36


"No entanto ei-la, a barata neutra, sem nome de dor ou de amor.

[...] Até que ponto ela se aproveitava a si mesma e a aproveitava do que era? [...] Que sabia eu daquilo que obviamente viam em mim?"
p. 92


37


"E também o meu medo era agora diferente: não o medo de quem ainda vai entrar, mas o medo tão mais largo de quem já entrou.

Tão mais largo: era medo de minha falta de medo."
p. 94


38


"Tive, sim, tive ainda o desejo de me refugiar na minha própria fragilidade e no argumento astucioso, embora verdadeiro, de que meus ombros eram os de uma mulher, fracos e finos. Sempre que eu havia precisado, eu me escusara com o argumento de ser mulher."
p. 96


39


"A alegria de perder-se é uma alegria de sabá. Perder-se é um achar-se perigoso."
p. 101


40


"Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. [...] Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.

A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender. [...]"
p. 109-10


41


"Tratava-se apenas de uma meditação visual. O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo. O menos perigoso é, na meditação, "ver", o que prescinde de palavras de pensamento."
p. 112


42


"[...] o mundo é extremamente recíproco. A vibração de um estrídulo inteiramente mudo na rocha; e nós, que chegamos a hoje, ainda vibramos com ele.

[...] Somos criaturas que precisam mergulhar na profundidade para lá respirar, como o peixe que mergulha na água para respirar, só que minhas profundidades são no ar da noite. [...] o vazio é um meio de transporte.

[...] e nós somos salgados pois que suar é a nossa exalação. [...] Sonâmbula como o petróleo que enfim jorra.

- Juro que é assim o amor. Eu sei, só porque estive sentada ali e estava sabendo. Somente à luz da barata, é que sei que tudo o que nós dois tivemos antes já era amor. Foi preciso a barata me doer tanto como se me arrancassem as unhas - e então não suportei mais a tortura e confessei, e estou delatando.

[...] Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo."
p. 114-5


43


" - Eu sei: nós dois sempre tivemos medo de minha solenidade e da tua solenidade. Pensávamos que era uma solenidade de forma. E nós sempre disfarçávamos o que sabíamos: que viver é sempre questão de vida e morte, daí a solenidade. [...] O único destino com que nascemos é o do ritual. Eu chamava "máscara" de mentira, e não era: era a essencial máscara da solenidade."
p. 116


44


"É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos."
p. 118


45


"Ah, será que nós originalmente não éramos humanos? e que, por necessidade prática, nos tornamos humanos?"
p. 119

46


"E a lágrima que vem do riso de dor é o contrário da redenção. Eu via que o inferno era isso: a aceitação cruel da dor, a solene falta de piedade pelo próprio destino, amar mais o ritual de vida que a si próprio - esse era o inferno, onde quem comia a cara viva do outro espojava-se na alegria da dor."
p. 120

47


"A grandeza infernal da vida: pois nem meu corpo me delimita, a misericórdia não vem fazer com que o corpo me delimite. No inferno, o corpo não me delimita, e a isso chamo de alma? Viver a vida que não é mais a de meu corpo - a isto eu chamo de alma impessoal?

[...] E porque a minha alma é tão ilimitada que já não é eu, e porque ela está tão além de mim - é que sempre sou remota a mim mesma, sou-me inalcançável como me é inalcançável um astro.

[...] A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la. Minha vida é mais usada pela terra do que por mim, sou tão maior do que aquilo que eu chamava de "eu" que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria. [...]

Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence - é aquela que toca na minha fronteira com o que já não sou eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é."
pp. 122-3

48


"Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana.

- Mas é que tornar-se humano pode se transformar em ideal e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver. Somos livres, e este é o inferno."
p. 124

49


"[...] - e eu encontrava o Deus indiferente que é todo bom porque não é ruim nem bom, [...]"
p. 127

50


"Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer - um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.

[...] Agora como falarei de um amor que não senão aquilo que se sente, e diante do qual a palavra "amor" é um objeto empoeirado?

[...] É que no neutro do amor está uma alegria contínua, como um barulho de folhas ao vento. [...] O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento. [...] O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha antiga prece humana."
p. 133

51


"Esse murmúrio, sem nenhum sentido humano, seria a minha identidade tocando na identidade das coisas. Sei que, em relação ao humano, essa prece neutra seria uma monstruosidade. Mas em relação ao que é Deus, seria: ser.

[...] Havia recuado até saber que em mim a vida mais profunda é antes do humano - e para isso eu tivera a coragem diabólica de largar os sentimentos. Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder entender a largueza, muito mais que humana, do Deus.

[...] A mim, como a todo o mundo, me fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a minha alma para saber. Mas agora eu entendia que não a vendera ao demônio, mais muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que eu não saberia ver o que visse: a explicação de um enigma é a repetição de um enigma. O que És? e a resposta é: És. O que existes? e a resposta é: existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas não de ouvir a resposta."
p. 134

52


" - Me deram tudo, e olha só o que é tudo! É uma barata viva que está à morte. [...] Olha só o que é tudo: é um pedaço, é um pedaço de ferro, de saibro, de vidro. Eu me disse: olha pelo que lutei, para ter exatamente o que eu tinha antes, rastejei até as portas se abrirem para mim, as portas do tesouro que eu procurava: e olha o que era o tesouro!

O tesouro era um pedaço de metal, era um pedaço de cal de parede, era um pedaço de matéria feita em barata.

Desde a pré-história eu havia começado a minha marcha pelo deserto, e sem estrela para me guiar, só a perdição me guiando, só o descaminho me guiando - até que, quase morta pelo êxtase do cansaço, iluminada de paixão, eu enfim encontrara o escrínio."
p. 136

53


"Do germe que sou, também é feita esta matéria alegre: a coisa. Que é uma existência satisfeita em se processar, profundamente ocupada em apenas se processar, e o processo vibra todo."
p. 139

54


"Mas é a mim que caberá impedir-me de dar nome à coisa. O nome é um acréscimo e impede o contato com a coisa. O nome da coisa é um intervalo da coisa."
p. 140

55


"Mas em matéria de viver, o sofrimento não é a medida da vida: o sofrimento é subproduto fatal e, por mais agudo, é negligenciável."
p. 141

56


"A natureza, o que eu gostava na natureza era o seu inexpressivo vibrante.

[...] Às vezes - às vezes nós mesmos manifestamos o inexpressivo - em arte se faz isso, em amor de corpo também - manifestar o inexpressivo é criar. No fundo somos tão, tão felizes! pois não há uma forma única de entrar em contato com a vida, há inclusive as formas negativas! inclusive as dolorosas, inclusive as quase impossíveis - e tudo isso, tudo isso antes de morrer, tudo isso mesmo enquanto estamos acordados! E há também às vezes a exasperação do atonal, que é de uma alegria profunda: o atonal exasperado é o vôo se alçando - a natureza é o atonal exasperado, foi assim que os mundos se formaram: o atonal exasperou-se."
p. 142

57


"E eu não quero o paraíso, tenho saudade do inferno! Não estou à altura de ficar no paraíso porque o paraíso não tem gosto humano! tem gosto de coisa, e a coisa vital não tem gosto, tanto que sangue na boca quando eu me corto e chupo o sangue, eu me espanto porque meu próprio sangue não tem gosto humano.

[...], pois quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo, [...]"
p. 143

58


"Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro."
p. 146

59


"Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos essa luz sempre atua, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte - é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.


[...] Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: "
p. 148


60


"(A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcancável é o meu paraíso perdido.)"
p. 150


61


"Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo.)

[...] Daí a alguns séculos ou daí a alguns minutos talvez digamos espantados: e dizer que Deus sempre! quem esteve pouco fui eu - [...]"
p. 151



62


"[...], e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa."
p. 153



63


"Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, como sentimentos demais."
p. 154



64


"Solidão é ter apenas o destino humano.

E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só.

[...] O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão."
p. 170



65


"A despersonalização como a grande objetivação de si mesmo. A maior exteriorização a que se chega. "
p. 174



66


"E eu também não tenho nome, e este é o meu nome. E porque me despersonalizo a ponto de não ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser: eu.

[...], é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair - só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde nascer."
p. 175



67


"Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. [...] A linguagem é o meu esforço humano. [...] O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crúcis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição."
p. 176



68


"[...], quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro."
p. 177



69


"Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espamos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido.

[...] E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

[...] Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. ------"
pp. 178-9




A paixão segundo G.H. / Clarice Lispector. - Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
CDD-869.93














Rodapé:

5.


imagens: http://lesbricolers.tumblr.com/



9. Apenas sou-me pelo o que não é-me.


11. "Não se nasce mulher: torna-se", Simone de Beauvoir em "O Segundo Sexo".


12. Lembrou-me imediatamente a ausculta e o martelo de Nietzsche. 


"Pensar Nietzsche é também olhar para uma filosofia que diz de um pensar como ‘ser no limite’. Esta expressão, utilizada por Derrida, indica, antes de tudo que para além da ideia de “superação” de limites, de ‘ultrapassamento’ , o ‘Ser-no-limite’ como um buscar “manter-se em relação com o não-filosófico” como tal. Destarte, o Tímpano é aquilo que se encontra no limite, entre o dentro e o fora. É aquilo que suporta a tensão, a diferença de pressão e que, simultaneamente, recebe os golpes e abranda as impressões, fazendo-se ressoar. Uma filosofia à marteladas, na qual há uma íntima relação entre o bater e o ouvir, se encontra presente na filosofia de Nietzsche.



O uso da metáfora do ouvido emerge como uma possibilidade de se compreender as marteladas que se querem reverberar. Ora, isso se dá na medida em que o ouvido, como órgão, parece não poder fazer uso de todas as suas possibilidades; afinal, o que nos é apresentado diz respeito, tão somente, a seu funcionamento como mera captação acústica. Em outras palavras, o ouvido aparece como uma espécie de semi-abertura, cuja entrada, aquilo que se põe par dentro, se dá na não intencionalidade, para fora do interesse. Na filosofia de Nietzsche, o ouvido do filósofo não apenas escuta; antes, está diante de um processo ainda maior, o de ausculta; ouvindo aquilo que vem de dentro, buscando encontrar um universo de representações que não são dadas em estruturas fixas, mas, isto sim, instaurado através do movimento." 



(AMITRANO, Georgia. Timpanizar a filosofia: a ausculta do outro nas marteladas de Nietzsche. Disponível em: http://georgiamitrano.blogspot.com.br/2011/09/timpanizar-filosofiaa-ausculta-do-outro.html . Acesso em: 22 de outubro de 2013.)


14. Não houve como não ser imediatamente remetida a Virginia Woolf em seu "A room of one's own".

"All I could do was to offer you an opinion upon one minor point - a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction; and that, as you will see, leaves the great problem of the true nature of woman and the true nature of fiction unsolved. I have shirked the duty of coming to a conclusion upon these two questions - women and fiction remain, so far as I am concerned, unsolved problems. But in order to make some amends I am going to what I can to show you how I arrived at this opinion about the room and the money.

(WOOLF, Virginia. A room of one's own. Hertfordshire: Wordsworth Editions Limited, 2007. p. 565)

23. De nunca, propriamente, morrer-se:

"[...], Tudo se passou como se ela não tivesse feito mais do que abrir uma porta e sair, Ou entrar, Sim, ou entrar, conforme o ponto de vista, [...]"

(SARAMAGO, José. Todos os nomes. Companhia das Letras: São Paulo, 1997 (2010). p. 267.)


24. Organizar é ter medo. Coragem é desorganizar-se.


28. Do escuro que não se diferencia do escuro lá fora:


"[...], Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, transportas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta, há bocado pouco faltou para que te pusesses aos gritos só porque imaginaste uns perigos, só porque te lembraste do pesadelo de quando eras pequeno, meu caro, tens de aprender a viver com a escuridão de dentro, [...]"

(SARAMAGO, José. Todos os nomes. Companhia das Letras: São Paulo, 1997 (2010). p. 177)

34. Da coisa cujo nome desconhece-se:

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

(SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. Companhia das Letras: São Paulo, 2000 [se não me falha a memória].)

38. É-se? Mais bem está-se.


51. A barata não é humana. Ela não sente as coisas pelos significados construídos pelos quais as sentimos - e, ao mesmo tempo, construímos. Sentimentos, tais quais os conhecemos, são frutos da nossa humanidade, da nossa ação humana de "racionalizar" e valorar tudo. 


É muita prepotência do humano querer que Deus seja feito à nossa imagem e semelhança quando nós é que Dele somos feitos - e, portanto, parte ínfima Dele é-se-nos - e que ele tenha os mesmos sentimentos, mundanos, que temos. 


Somos pequenos demais diante das respostas. Nós somos as Perguntas, apenas. Mas importamos:  não subsiste sozinha a Resposta.



54. As palavras amor, assim como Deus, não conseguem atingir aquilo que almejam traduzir. As palavras limitam o invisível, aprisionando-o em letras.

"Chama-se metamorfose, toda a gente sabe de que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo, Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizer metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes deste, [...]"

(SARAMAGO, José. As intermitências da morte. Companhia das Letras: São Paulo, 2005. p. 72)



67. Da linguagem:


"A linguagem pertence, por sua origem, à epoca da mais rudimentar forma de psicologia: penetramos um âmbito de cru fetichismo, ao trazermos à consciência os pressupostos básicos da metafísica da linguagem, isto é, da razão. É isso que em toda parte vê agentes e atos: acredita na vontade como causa; acredita no "Eu", no Eu como ser, no Eu como substância, e projeta a crença no Eu-substância em todas as coisas - apenas então cria o conceito de "coisa"... Em toda parte o ser é acrescentado pelo pensamento como causa, introduzindo furtivamente, apenas da concepção "Eu" se segue, como derivado, o conceito de "ser".

[...] Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática... "

(NIETZSCHE, Friedrich. O crepúsculo dos ídolos. Companhia das Letras: São Paulo, 2006. p. 28.)


Um ótimo texto para se utilizar em aulas sobre o construtivismo. Grande desconstrução! Desconstruir para construir. Ótimo exemplo para ilustrar, literariamente, o construtivismo nas Relações Internacionais, transportando a desconstrução do amor e de Deus para os atores internacionais. Se eu fosse professora, certamente faria isso. Eu, como sempre, vendo o mundo através das lentes literárias/poéticas alheias...


68. De ser pelo não ser: sou através do outro/é-se pelo não ser.


"Segunda tese. As características dadas ao "verdadeiro ser" das coisas são as características, do nada - construiu-se o "mundo verdadeiro"a partir da contradição ao mundo real: um mundo aparente, de fato, na medida em que é apenas uma ilusão ótico moral."

(NIETZSCHE, Friedrich. O crepúsculo dos ídolos. Companhia das Letras: São Paulo, 2006. p. 29.)

De a vida ser tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido:

"Já o caso de deus é diferente. Por muito que se esforçasse nunca conseguiria tornar-se visível aos olhos humanos, e não é porque não fosse capaz, uma vez que a ele nada é impossível, é simplesmente porque não saberia que cara pôr para se apresentar aos seres que se supõe ter criado, sendo o mais provável que não os reconhecesse, ou então, talvez ainda pior, que não o reconhecessem eles a ele."

(SARAMAGO, José. As intermitências da morte. Companhia das Letras: São Paulo, 2005. pp. 145-6.)









Livro que ganhei de um amigo que me ganhou.








19 de outubro de 2013/12 de dezembro de 2013